BENÇA, VÓ?! | Rani Lisboa

A aeronave que conduzirá a mulher tão importante quanto o ar que enche meus pulmões de vida, acabou de aterrissar. Uma voz desconhecida e compassada, anunciou que agora não tem mais jeito, chegou a hora do abraço mais apertado e longo ser dado. Pensei em espernear ou me debater no chão forjando um ataque epilético, mas eu não tenho cinco anos de idade. Não posso agarrar na barra da saia dela e pedir em prantos que fique ou me leve na mala. E isso é uma merda!

Caminhamos até o embarque, entrego-a para a comissária de bordo feito um pai ciumento que passa a mão da sua filha caçula ao noivo. “Cuida dela direito ou eu te mato! — tapinha nas costas, aperto de mão firme — eu tô falando sério!”

– Boa viagem, Vó! Bença?!

– Deus te abençoe, Ni! Olhe, cuidado na bebedeira. Em bar tem tudo que não presta.

– Pode deixar, Vó!

Em passos lentos, ela segue sem mim, mas continuou com olhos fixos nos cabelos grisalhos que a cada novo passo se distancia do alcance da minha retina. Em oração peço que os bons ventos a leve em segurança, mas também clamo aos deuses que ela volte o mais rápido possível. O portão B se fecha e minha vista se inunda de saudade.

A vida adulta grita com o indicador na minha cara. A queima roupa, cospe verdades doloridas, tenta me convencer que às vezes as pessoas amadas precisam seguir caminhos diferentes dos meus e não há nada que eu possa fazer para adiar a despedida. Eu acatei mesmo sem entender essa lógica tão cruel.