Nós éramos

Eu era instante

Ela continuidade

Eu era menina

Ela, maturidade

 

Eu era boteco da esquina

Ela era restaurante na Faria lima

Eu era litrão barato

Ela, vinho sofisticado.

 

Eu era inquietação

Ela era brisa calma

Eu era sorriso de Ibeji

Ela, beleza na alma.

 

Eu era voar sem destino

Ela era freio de mão

Eu era mudar de rota

Ela, só seguia o coração

 

Eu era castanho escuro

Ela era verde singular

Eu era par de olhos comum

Ela, um infinito particular

 

Eu era rock’ n’roll

Ela era música popular

Eu era volume alto

Ela, “dá pra baixar?”

 

Eu era o calor do sol

Ela era a luz sútil do luar

Eu era noite esperada

Ela, eclipse lunar

 

Eu era rosa amarela

Ela era alecrim

Eu era essência indefinida

Ela, cheiro de jasmim

 

Eu queria as estrelas

Ela a tranquilidade

Eu não tinha certeza

Ela não entendia a liberdade

 

Eu era o cuidado inédito

Ela era “me avisa quando chegar?!”

Eu era “Se cuida, tá?”

Ela, “posso ligar?

 

Eu era abraço inesperado

Ela era cafuné no fim do dia

Eu era piada sem graça

Ela, a própria alegria

 

Eu era “querer fugir”

Ela era enfrentar

Eu era coragem fingida

Ela, quase uma Oyá

 

Eu não acreditava em destino

Ela me fez mudar

Da água pro vinho

Nem dá pra acreditar

 

Feito um eclipse

Um evento celestial

Se separaram ao fim

Mas quem vai dizer tchau?

 

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VOCÊ PRECISA ESQUECER | RANI LISBOA

Faça uma lista de coisas que você precisa esquecer, em seguida, ponha fogo.

Esqueça aquela roupa preferida que não te server mais – agora ela aperta.

Esqueça o sapato que você comprou há pouco tempo por impulso porque achou incrivelmente lindo, mas desde o princípio sabia que machucaria seu pé.

Esqueça a comida que o médico te proibiu de comer – agora ela é tóxica e te mata aos poucos.

Esqueça a ideia de que whisky afoga seus demônios, ele só os deixa mais fortes.

Esqueça o corpo que te aqueceu no inverno passado porque agora ele não se encaixa mais no seu. Insistir pode quebrar seu coração.

Esqueça os planos cheio de expectativas que criou motivada pelo peito acelerado, não foi dessa vez, acontece.

Esqueça a falta de colo na infância – doeu lá atrás, agora você pode ser colo para quem não sabe o que é ser amado. Ter nascido em meio a espinhos não quer dizer que você precisa ser um. Escolha ser flor.

Esqueça. Porque para seguir, precisamos esquecer. Deixar o que pesa no passado, o avião vai decolar e não dá pra levar tudo.

Esqueça porque é impossível reescrever o passado, mas se quiser, pode desenhar o presente para que o futuro seja menos doloroso.

Esqueça porque a vida mora no agora e o ontem já passou.

Depois de esquecer. Voe o mais alto que puder. Vá para onde quiser ir. Conheça lugares, pessoas, gostos, comidas, bocas, lençóis. Descobrindo o mundo, você se conhecerá melhor que qualquer psicólogo com cara de interrogação.

Voe e quando sentir vontade, pouse. Tenho certeza que sempre haverá alguém para dizer ” Que bom que você voltou. Senti saudades.”

 

BENÇA, VÓ?! | Rani Lisboa

A aeronave que conduzirá a mulher tão importante quanto o ar que enche meus pulmões de vida, acabou de aterrissar. Uma voz desconhecida e compassada, anunciou que agora não tem mais jeito, chegou a hora do abraço mais apertado e longo ser dado. Pensei em espernear ou me debater no chão forjando um ataque epilético, mas eu não tenho cinco anos de idade. Não posso agarrar na barra da saia dela e pedir em prantos que fique ou me leve na mala. E isso é uma merda!

Caminhamos até o embarque, entrego-a para a comissária de bordo feito um pai ciumento que passa a mão da sua filha caçula ao noivo. “Cuida dela direito ou eu te mato! — tapinha nas costas, aperto de mão firme — eu tô falando sério!”

– Boa viagem, Vó! Bença?!

– Deus te abençoe, Ni! Olhe, cuidado na bebedeira. Em bar tem tudo que não presta.

– Pode deixar, Vó!

Em passos lentos, ela segue sem mim, mas continuou com olhos fixos nos cabelos grisalhos que a cada novo passo se distancia do alcance da minha retina. Em oração peço que os bons ventos a leve em segurança, mas também clamo aos deuses que ela volte o mais rápido possível. O portão B se fecha e minha vista se inunda de saudade.

A vida adulta grita com o indicador na minha cara. A queima roupa, cospe verdades doloridas, tenta me convencer que às vezes as pessoas amadas precisam seguir caminhos diferentes dos meus e não há nada que eu possa fazer para adiar a despedida. Eu acatei mesmo sem entender essa lógica tão cruel.