Uma ode às mulheres diretas

Suspiros & Desatinos

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Ela entra sem bater portas e vai direto ao ponto: ou isso ou aquilo. Numa prova de múltipla escolha com ela você não teria opção nenhuma, teria que rebolar um pouco pra dar à ela uma boa justificativa, na lata. Enquanto você fica em cima do muro, ela dispensa os meio-termos: tem pavor de gente indecisa, de se esconder atrás de motivos, de venerar os rodeios. Se você é labirinto, ela não brinca. Aprendeu que não vale a pena bancar Teseu e muito menos o Minotauro. Esses personagens ela deixa pra mitologia grega e eles não cabem nas histórias que ela quer contar.

Ela caminha na sua direção e você sabe que é ela porque treme. Treme mesmo que ela esteja de tênis de corrida ou salto agulha, tremeria mesmo se ela estivesse descalça. Você sente peso e ela se sente leve. Sente que tirou um peso grande das costas…

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VOCÊ PRECISA ESQUECER | RANI LISBOA

Faça uma lista de coisas que você precisa esquecer, em seguida, ponha fogo.

Esqueça aquela roupa preferida que não te server mais – agora ela aperta.

Esqueça o sapato que você comprou há pouco tempo por impulso porque achou incrivelmente lindo, mas desde o princípio sabia que machucaria seu pé.

Esqueça a comida que o médico te proibiu de comer – agora ela é tóxica e te mata aos poucos.

Esqueça a ideia de que whisky afoga seus demônios, ele só os deixa mais fortes.

Esqueça o corpo que te aqueceu no inverno passado porque agora ele não se encaixa mais no seu. Insistir pode quebrar seu coração.

Esqueça os planos cheio de expectativas que criou motivada pelo peito acelerado, não foi dessa vez, acontece.

Esqueça a falta de colo na infância – doeu lá atrás, agora você pode ser colo para quem não sabe o que é ser amado. Ter nascido em meio a espinhos não quer dizer que você precisa ser um. Escolha ser flor.

Esqueça. Porque para seguir, precisamos esquecer. Deixar o que pesa no passado, o avião vai decolar e não dá pra levar tudo.

Esqueça porque é impossível reescrever o passado, mas se quiser, pode desenhar o presente para que o futuro seja menos doloroso.

Esqueça porque a vida mora no agora e o ontem já passou.

Depois de esquecer. Voe o mais alto que puder. Vá para onde quiser ir. Conheça lugares, pessoas, gostos, comidas, bocas, lençóis. Descobrindo o mundo, você se conhecerá melhor que qualquer psicólogo com cara de interrogação.

Voe e quando sentir vontade, pouse. Tenho certeza que sempre haverá alguém para dizer ” Que bom que você voltou. Senti saudades.”

 

BENÇA, VÓ?! | Rani Lisboa

A aeronave que conduzirá a mulher tão importante quanto o ar que enche meus pulmões de vida, acabou de aterrissar. Uma voz desconhecida e compassada, anunciou que agora não tem mais jeito, chegou a hora do abraço mais apertado e longo ser dado. Pensei em espernear ou me debater no chão forjando um ataque epilético, mas eu não tenho cinco anos de idade. Não posso agarrar na barra da saia dela e pedir em prantos que fique ou me leve na mala. E isso é uma merda!

Caminhamos até o embarque, entrego-a para a comissária de bordo feito um pai ciumento que passa a mão da sua filha caçula ao noivo. “Cuida dela direito ou eu te mato! — tapinha nas costas, aperto de mão firme — eu tô falando sério!”

– Boa viagem, Vó! Bença?!

– Deus te abençoe, Ni! Olhe, cuidado na bebedeira. Em bar tem tudo que não presta.

– Pode deixar, Vó!

Em passos lentos, ela segue sem mim, mas continuou com olhos fixos nos cabelos grisalhos que a cada novo passo se distancia do alcance da minha retina. Em oração peço que os bons ventos a leve em segurança, mas também clamo aos deuses que ela volte o mais rápido possível. O portão B se fecha e minha vista se inunda de saudade.

A vida adulta grita com o indicador na minha cara. A queima roupa, cospe verdades doloridas, tenta me convencer que às vezes as pessoas amadas precisam seguir caminhos diferentes dos meus e não há nada que eu possa fazer para adiar a despedida. Eu acatei mesmo sem entender essa lógica tão cruel.