A Kryptonita do meu super herói era o álcool

Apesar da dificuldade de expressar os seus super poderes amorosos ele era um cara legal as vezes. Quase todas as noites chegava as 20h com nosso chocolate preferido. Eu disse quase porque em outras noites ele se transformava no monstro que mais me metia medo. Não tinha medo do velho do saco que sequestrava criancinhas para vender seus órgãos no exterior, tampouco da loira do banheiro. Mas quando ele se aproximava, desequilibrado, exalando álcool eu tremia na base, meu coração disparava, mal conseguia respirar.  Então, cobria a cabeça com edredom torcendo para que, aquela capa de algodão me protegesse da fúria de um gigante embriagado. De certa forma o meu edredom azul me protegia, mas, não me impedia de ouvir os gritos de socorro da minha heroína.

Minha heroína tem super poderes incríveis. Ela tem a habilidade de cuidar de três filhos endiabrados com maestria. Consegue pôr ordem na casa melhor que o capitão nascimento e é a profissional mais competente que o mundo corporativo já conheceu. Ela só tinha um ponto fraco, não conseguia se defender do monstro pelo qual se apaixonou. Não admitia, mas todos sabiam que ele era a kryptonita dela.

Ele chegava de madrugada em casa com um cheiro horrível de puta e cachaça. Ela reclamava. Ele batia sem dó. Ela chorava. Ele tripudiava, contava com quantas mulheres tinha transado naquela noite. Ela, jogada no chão, sangrando, jurava em meio a lágrimas que largaria aquele homem. Eu já sabia o enredo do filme, no dia seguinte, ele chegaria mais cedo em casa, com rosas e nosso chocolate preferido.  Ela ainda com hematomas sorriria e esqueceria do terror que foi a noite anterior. Eu passei a odiar chocolate e todos as noites antes de dormir arquitetava um plano mirabolante para matar aquele monstro.

Dez anos se passaram, Deus me ouviu e deu o poder da força de vontade a minha heroína. Ela libertou-se do cativeiro sentimental que a prendia e conheceu o mocinho. Hoje ela vive feliz, espero que para sempre. Quanto ao monstro, eu o matei. Matei aos poucos, de forma lenta e cruel, queria que ele sentisse o dobro de sofrimento que nos fez passar. É como o menino Zezé do “ Meu pé de laranja lima” diz: ”Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.” O único problema é que tenho sensibilidade para sentir espíritos e ele me assombra vez ou outra. A minha sorte é que tenho um edredom azul surrado lá em casa, ele me protege em noites ruins.

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