Você não deveria voltar 

Lá vem você de novo com a cara mais lavada do mundo bater na minha porta. Vem de mansinho com duas batidas sutis e uma voz suave:  – Eu sei que você está aí, gira essa maçaneta, deixa eu entrar. Juro que não faço bagunça dessa vez. Enquanto desço as escadas do meu quarto, faço as contas mentalmente e concluo que essa é a décima segunda vez que você promete isso, então, o mais inteligente seria ignorar o seu chamado mas, irracionalmente te entrego a chaves por baixo da porta na tentativa de me isentar da culpa quando você partir pela décima terceira vez.

Você girou a chave! Olha, trouxe flores. Obrigada! Te sirvo um café e digo para se comportar, sem chacoalhar minha vida dessa vez, ok? Te deixo ficar aqui, mas fica quietinho, não faça terremoto, tampouco vire de ponta cabeça o lugar que você fez morada. Fazendo sinal de positivo com a cabeça mostra que concorda com as regras isso me deixa aliviada. Então, relaxo um pouco e te dou um voto de confiança.Você é o cara que me ganhou há três anos atrás durante a primeira semana, isso me deixa com um sorriso largo no rosto. A possibilidade de sermos “nós” novamente, enche  meu coração de felicidade. Você faz o café. Eu lavo a louça. Você faz as compras do mês. Eu vou ao banco. Assim a gente vai vivendo. Quer dizer, até a página dois…

Dou uma enrolado no meu chefe e consigo chegar em casa mais cedo, hoje é meu dia de fazer o jantar, quero fazer bonito. Quando entro em casa levo um susto, você não estava jogado no sofá assistindo The walking dead como de costume. Então, vou até o nosso quarto e no seu lado da cama um bilhete, meus pés perdem a força nesse instante, precisei segurar na parede para não ir de encontro ao chão, não acredito que você estava fazendo isso de novo.

Uma pontinha de esperança me deixa estabilizada, talvez seja um bilhetinho dizendo que você foi comprar o meu chocolate favorito e que volta em quinze minutos. Abro aquela folha que pareceu ser amaçada e desamassada algumas vezes, para a minha infelicidade não eram palavras doces que estavam escritas ali, você mais uma vez me deu uma rasteira dizendo: Amor, desculpa! Não posso fazer isso. Eu te amo, mas não posso reviver o “nós”, eu conheci outra pessoa, a gente vive junto há um tempo não posso fazer isso com ela. Então é isso? Você vem, bagunça meu cabelo, meu edredom, minha vida e se despede com um bilhetinho? Sabe, poderia ensaiar maneiras de te matar, mas não farei isso. O próximo inverno está chegando, você sabe meu endereço e certamente baterá na minha porta outra vez, mas te adianto: as batidas serão inúteis, eu tô indo, viu? Ainda não sei se para  outro estado, país, ou outro alguém, mas eu tô indo.

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