Eu venci a ladeira

Perto da minha antiga casa tem uma ladeira – a ladeira mais assustadora de todas as ladeiras desse mundo. Vez ou outra, ficava observado os meninos exibirem sua coragem: desafiavam com marra, as pedras soltas do paralelepípedo. Eles se equilibravam e num ponto específico, soltavam as mãos do guidão. Desciam aquela inclinação da natureza, que mais parecia o cenário perfeito para os ” Jogos Mortais ” enquanto um grito libertador, indicava a satisfação de mais uma vitória.

Algumas vezes tentei descer a ladeira, mas o medo congelava meus braços. Não conseguia soltá-los. Isso me deixava com um nó na garganta e uma sensação de impotência horrível. Tinha tanta raiva da minha incapacidade que jogava minha bicicleta no quintal e me trancava emburrada no quarto. Só saia quando minha Vó me chamava para o almoço. Ela cozinha tão bem, que qualquer sentimento ruim, se desfazia na primeira colherada de afeto disfarçado de baião de dois que ela colocava no meu prato.

Os dias passavam – eu continuava observando com atenção a ferocidade dos corajoso – eu queria ser como eles, mas a frustração sempre me nocauteava, não tinha sangue no olho que me encorajasse .

Numa tarde, durante o bolo de fubá e o suco de caju, minha Vó notando meu abatimento se aproximou com olhos cheios de ternura e me perguntou: “Ei Ni, o que aflige esse coração bobo?” Levantei a cabeça, olhei nos olhos dela e respondi: “Ah, Vó! É a ladeira. Não consigo fazer o que os meninos fazem, tenho medo. Um medo tão grande que trava cada parte do meu corpo”.
Minha Vó sorriu e numa sabedoria ímpar, me deu o maior conselho de todos: “Claro que consegue. Se você quiser muito uma coisa, se quiser de coração, o universo conspira a seu favor. Se você quiser menina, consegue até agarrar a lua.”

Confesso: não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas no dia seguinte, acordei com uma coragem surreal -peguei a minha magrela e a empurrei até o topo daquela que mais me metia medo. Respirei fundo, rezei, contei até três e fui. Fui sem segurar no guidão, fui com os olhos fechado e soltei um grito estridente. Sabe o que aconteceu no fim da ladeira? Um belo de um tombo! Cai, ralei o joelho e arrebentei o queixo. Meio atordoada, ouvi uma voz longe que pedia para os santos me protegerem. Era a Dona Nilza!

Depois de cinco minutos, minha Vó me tomou nos braços, nunca a vi tão aflita. Gritava pelo meu nome, mas eu ainda estava em estado de êxtase, mal conseguia me mexer. Quando voltei a consciência só conseguia dizer “Eu consegui, Vó. Eu venci! Não tenho mais medo dela”. Minha Vó com olhos marejado não sabia se me dava uma bronca ou se me abraçava. Ela optou pelo carinho e num sorriso acalentador disse: “É, você conseguiu. Mas pela saúde da sua vozinha, nunca mais faça isso, ok?”

Esse foi o melhor tombo da minha vida. Sabe porquê? A gente só precisa de alguém que acredite no nosso poder de superação. Uma pessoa que seja nosso combustível. Aí, a gente inflama e, não tem ladeira que nos intimide.

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