Eu queria ter te protegido aquela noite

Hoje faz doze anos! Já se passou mais de uma década e eu ainda lembro. Cheiro de pinga barata, barulho de móveis quebrando, gritos e choro. Choro que ecoa dentro de mim até hoje.

Nesse dia pedi que ela dormisse comigo. Ela, que nunca soube negar um pedido meu quando feito com olhos de medo, acatou e dormiu do lado direito da cama – sempre deixa o lado da parede para mim, diz que me mexo muito enquanto durmo e dessa forma, ela me protegia de uma queda repentina.

Onze e trinta da noite – uma pancada na porta me faz acordar com o coração acelerado, sem folego. Ele tinha chegado. Ela olhou para mim sorrindo e disse que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava. Bastou apenas cinco minutos para que aquele monstro, bufando e com olhos vermelhos invadisse meu quarto. Ele a segurou pelo cabelo e a arrastou para fora como se fosse um saco de lixo. Como se ela não tivesse carne, osso e sentimentos. Eu tentei ajudá-la, mas ele me empurrou e fechou a porta do quarto. Nunca senti tanto ódio na minha vida. Se tivesse uma arma, teria dado um tiro certeiro, bem no coração dele.

Porta fechada. Edredom por cima da cabeça. Mãos nos ouvidos. Tentei de todas as formas não ouvir o choro dela, mas foi em vão. O soco dele atingia ela e me derrubava. Os chutes dele marcavam as costas dela e deixavam uma mágoa irreversível no meu coração. Fui a nocaute naquela noite. Ele não relou um dedo em mim, mas no dia seguinte acordei quebrada. Não queria levantar. Não queria ver o rosto dela. Nem os hematomas que ele havia deixado em seu corpo. Senti a dor dela naquela noite. Senti vontade de matar alguém naquela noite.

Eu queria ter tirado ele de cima de você, queria ter te protegido. Eu deveria ter dormido do lado direito naquela noite. Mas eu tinha medo. Era fraca demais. Eu só tinha dez anos.

Você não sabe, mas aquela noite enquanto você chorava fiz uma promessa: prometi que seria o seu maior orgulho. Prometi que secaria as suas lágrimas e curaria seu machucado com todo afeto existente dentro de mim. Prometi que te daria tanta felicidade que você nunca mais lembraria do dia quinze de abril de dois mil e dois.

Eu cresci. Não sei se você lembra daquela noite horrível – espero que não. Eu cresci e não tenho mais medo. Ninguém nunca mais vai bater em você – serei seu escudo. Te protegerei até o meu último suspiro. Enquanto eu tiver forças, estarei de pé e te manterei ilesa.  Não me importo em sangrar desde que seu sorriso se mantenha intacto.

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2 comentários sobre “Eu queria ter te protegido aquela noite

  1. Rani, se eu quase chorei lendo, imagino suas dores … Suas e de sua mãe!
    Mas o melhor disto tudo é ver vocês hoje – passados estes anos – rindo da vida, felizes, com o Miguel e com toda a nova vida que tem pela frente!
    Algumas feridas insistem em não ter suas marcas apagadas de vez, do coração e da mente, mas a vida segue! E o que importa é o que se apreende disto tudo!
    Agora admiro mais ainda você e sua mãe, e no que se transformaram depois de tudo. E isto é o que deve ficar cravado nos seus corações! O resto é aprendizado!!!
    E quanto mais distante vocês ficarem destas tristes lembranças, melhor pra vida que tem a ser construída, edificada e saboreada!
    Que o Universo conceda este Amor, esta alegria e tudo o que de melhor vocês possam ter, em todos os dias de suas vidas!
    Com carinho,
    Mara

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