Pobre Marcela

Marcela vagava pela empresa onde trabalha a quase uma década com olhos tristes e nitidamente abatida. Fazia tudo no modo automático, na mesma hora, do mesmo jeito. Marcela estava infeliz com a vida que levava no horário comercial e fora dele.

Às dezenove horas, chegava no seu apartamento na zona sul. Dava boa noite a ninguém e acendia um cigarro. Servia uma taça de vinho branco para a solidão e para ela. O único afeto que recebia era do Frederico, seu fiel escudeiro – o gato estimação que ela resgatou das ruas caóticas de São Paulo. Pobre Marcela, estava fadada ao fracasso emocional.

Antes de ser nocauteada pela depressão, Marcela sonhava em conquistar o mundo. Planejava noites românticas em Paris, sábados insanos em Ibiza e tardes charmosas em Veneza. Ela também era engajada em projetos sociais. Defendia a causa alheia como se fosse dela, dava gosto de ver. Corria no parque nas segundas, dançava tango nas terças, levava o Frederico ao veterinário nas quartas e dedicava os outros dias da semana ao Igor, seu amado. Era um ser preenchido e feliz até o dia do acidente.

***

23/03/2007 – 00:45h

Marcela e Igor comemoravam o primeiro ano de casamento. Sorriam abobalhados a cada dose de tequila entornada. Trocavam juras de amor que sempre acabavam com “ até que a morte nos separe”. Eram o casal mais bonito da cidade, dignos de um romance hollywoodiano.

02:45h – Claramente embriagados, decidiram que era hora de ir embora. Marcela, pegou a chaves do carro. “Amor, cê consegue dirigir? ”  Perguntou Igor com uma notória preocupação. Marcela não disse nada, apenas olhou para Igor e sinalizou que sim com a cabeça.

03:15h – Igor adormeceu no banco do carona. Marcela, lutava contra o peso das pálpebras. Quando estavam chegando perto de casa, ela foi vencida pelo sono e adormeceu. Cinco minutos foram suficiente para acabar com a sua vida. Sem perceber, cruzou o sinal vermelho.  Bateu. Capotou. Entrou em coma.

27/03/207 – 08:00h –  Hospital Municipal

Marcela acordou atordoada após quatro dias em coma. Sua mãe, que estava ao lado da cama, tentou tranquiliza-la. “ Calma filha, está tudo bem”. Quando percebeu que Igor não estava no quarto se desesperou. “ Mãe, cadê o Igor? Ele está bem, né? ”, gritava Marcela! Sua mãe, sem saber como dar a trágica notícia, baixou o olhar. Marcela já sentia a perda, mas não queria acreditar. Então indagou mais uma vez sua mãe: “ Mãe, cadê o Igor? ”, “ Filha, o Igor…ele… ele não sobreviveu. Sinto muito.”

Uma frase foi suficiente para matar Marcela. Apesar de continuar respirando, decidiu que nunca mais viveria. Ela morreu para o mundo, mas a promessa ” até que a morte nos separe”  insistia em ecoar na sua cabeça. Marcela se transformou em um zumbi sem salvação. Pobre Marcela…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s