Me tornei um deles

Acordei broxada com a vida. É, BRO-XA-DA! Coloquei a viseira para não olhar para os lados. Não quero ver gente, nem cachorrinhos fofinhos passeando do outro lado da calçada com suas donas de nariz empinado. Hoje, as dezenas de pessoas dormindo embaixo do Viaduto do Chá não deixarão meus olhos marejados – não vou me perguntar o que aconteceu com elas, onde estão suas famílias, nem como fazem para sobreviver nessa selva de pedra egocêntrica sem enlouquecer.

Despertei no perfil automático. Fiz tudo no modo-robô-frio-e-sem-sentimentos. Atravessei catracas, esbarrei em pessoas, ignorei porteiros e bati cartão.

Na hora do almoço, tirei a viseira, lavei o rosto e olhei no espelho – fiquei assustada com o que vi. Olhos sem brilho, cansados e contornados por olheiras. A criança que morava dentro de mim se perdeu em algum cruzamento da Av. Paulista – no lugar dela, reside agora, uma máquina fria sem  batimentos nem empatia. Me tornei um deles.

O concreto invadiu o meu corpo e revestiu meu coração. A dor alheia não dói mais em mim. Me preocupo apenas em bater metas e em dobrar a minha comissão. Me perdi da minha alma, da minha essência da minha humanidade. Hoje, assinei meu atestado de obito e me tornei mais um zumbi de São Paulo.

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