Vai para o mundo, amor

Fazia tempo que não nos beijávamos. Como se tivéssemos sido programados, deitávamos na cama – cada um do seu lado – e dormíamos. Nossas pernas não mais se entrelaçavam. Ela aprendeu a dormir sem os meus afagos. Eu perdi a vontade de abraçá-la, de protegê-la do frio ou de qualquer eventual perigo noturno.

Ninguém queria admitir, mas o “nós” pouco a pouco se dissolvia na rotina e no comodismo. O café esfriava na mesa, os olhares raramente se cruzavam – estavam sempre voltados para o touch do celular. A despedida antes do trabalho, resumia-se a um beijo no rosto – tão gelado quanto aquele café amargo em cima da mesa seguido de ” vou ficar até mais tarde no escritório”.

Dividir o mesmo teto com alguém nessas condições, é extremamente  sufocante. Eu precisava fazer algo, mas não sabia bem o quê.

Durante uma noite tempestuosa, onde dormir era tão difícil quanto entender física quântica eu a observei dormir. Feição angelical, respiração profunda. Seu corpo encolhido, pedia um abraço caloroso. Naquele instante, senti um estalo – lembrei da primeira vez que a vi; morena, cabelos cacheados, covinhas encantadoras e olhos castanhos capazes desestabilizar o mais racional dos seres. Meu coração acelerou feito um piloto que briga pela pole position. Eu ainda a amava.

Na manhã seguinte, acordei mais cedo. Tomei o maior cuidado do mundo para não acordar a Clarice. Levantei  e no lugar direito da cama, deixei uma passagem, um bilhete e uma rosa.

– “Amor, comprei uma passagem para o Chile – uma só. Dessa vez não pegarei a estrada com você. Já fiz suas malas e já chamei o táxi. Não amor, não estou terminando – só quero que você vá para o mundo. Conheça a America do Sul de ponta a ponta. Depois decida qual próximo destino. Não amor, não cansei de nós, só quero que você prove outros sabores, outros vinhos, que aprenda outras línguas e beije outras bocas. Quero que você vá para o mundo! Quero que voe o mais alto que conseguir. Que realizes todos os desejos e sonhos.  Se sentir vontade, volte! Mas agora, você precisa ir. Nos meus braços não encontrou plenitude, demorei para – admitir – entender isso. Mas agora eu sei. É por te amar tanto que te digo: Vai para o mundo, Clarice!”

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2 comentários sobre “Vai para o mundo, amor

    1. Oi, Fernanda!
      Poxa, fico imensamente feliz por você ter gostado.
      Criarei uma página no face e quero que a primeira curtida seja sua.
      Costumo postar bastante coisa sobre o blog no meu face, se quiser me adicionar: Rani Lisboa
      Espero te encontrar mais vezes aqui. 🙂
      Beijos

      Curtir

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