Carlos Albuquerque de Almeida

Éramos quatro. Eu, Carlinhos, a Lu e o Juca. As estradas estreitas de paralelepípedo e os pés de siriguela da Dona Isa, eram testemunha da peraltice do quarteto mais endiabrado de Cabrobó. Separados, éramos anjinhos, mas juntos, botávamos aquela cidade de pernas para o ar.

Janelas quebradas, galinheiros arrombados – a Lu detestava ver bicho preso.  Bolo de milho sorrateiramente sequestrado – e devorado – das janelas alheias. Joelhos e cotovelos em carne viva depois da missão ” pegar carona na caçamba do Zé da D-20″ comandada pelo Carlinhos,  falhar. Nós éramos o grupo de pirralhos mais temido naquela região.

O tempo foi passando, as espinhas explodindo no rosto, os ossos se esticando. Os hormônios entravam em ebulição. O quarteto fantástico ganhava músculos, pelos no sovaco, necessidade de explorar a sexualidade e vontade de sair pelo mundo.

Quando nos formamos no ensino médio, nos reunimos no quintal da casa do Juca. Diante de uma fogueira imensa, demos as mãos e prometemos nunca nos largar. Não importava o caminho que cada um seguisse  daquele dia em diante. OS PESTES DE CABROBÓ dariam um jeito de se reencontrar.

O lado ruim da vida, é que as pessoas crescem, os laços se desfazem e as pessoas se tornam adultos bundões.

A Luh, passou em veterinária na Federal. Sempre que pode, me visita nas férias. O Juca foi fazer  intercâmbio em Londres, mas todo ano vem me visitar. O Carlinhos mudou para São Paulo. Da última vez que nos falamos – há quatro anos – ele estava super feliz. Tinha conseguido estágio numa multinacional.

Todo fim de ano, como prometido, o quarteto quebrado se reúne no mesmo quintal. Quebrado, porque o Carlinhos nunca aparece. Na verdade, o menino peralta de antigamente morreu. Deu lugar ao Carlos Albuquerque de Almeida. O senhor de negócios que está sempre ocupado. Que não tem tempo para atender velhos amigos e que pede para a secretária mandar cartões de natal digitado e carimbado com a assinatura dele para a gente.

Carlinhos cresceu, ganhou rios de dinheiro. Carlinhos se afogou no império que construíra. Pobre, Carlos Albuquerque de Almeida! Daqui a alguns anos, não conseguirá pregar o olho. Se tornará dependente de calmante, álcool, pessoas descartável.
Daqui a algum tempo, da janela da sua cobertura  no Marumbi, se dará conta que perdeu o melhor da vida tentando aumentar os dígitos da conta bancária.

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