No céu não tem paçoca

Hoje faz um ano que me mandaram para o céu. O plano terrestre, cheio de pecado, insanidade e  Skol Beats ficou na encarnação passada. Hoje, vivo em meio a campos floridos, querubins que cheiram a alfazema e palestras de reabilitação – dizem que só posso sair daqui quando aprender a enxergar o meu semelhante.

No começo, foi punk. A adaptação foi tão difícil quanto fazer baldeação na estação Sé em dias chuvosos. Aqui é muito calmo. As pessoas andam devagar, olham nos nossos olhos, conservam com a gente – eu passei meio século ligado no 220. Desacelerar era quase que impossível!

Com tempo, aprendi a andar em passos de tartaruga. A ouvir os cânticos de anjos e a voar. Mas tem duas coisas que não aprendi: vontade de paçoca e a saudade da Clarice.

No céu não tem paçoca. Não tem olhos castanhos claros vigiando meu sono nem mãos leves acariciando meus cabelos. No céu, não tem Coldplay tocando baixinho no meu ouvido enquanto volto para casa depois de um final de semana épico. Que os trompetes celestiais abafem meu grito: Eu Tô  com uma saudade do caralho da minha Clarice!

Sinto falta dela – dela todinha.
Sinto falta do olhar apaixonada, do cheiro cítrico que ela deixava no meu moletom do Pearl Jam. Sinto falta do beijo macio e demorado que mesmo depois que acabava fazia eu ficar mais um tempão de olho fechado.
Sinto falta do abraço surpresa durante a noite. Sinto falta de acordar de repente com sua movimentação exaltada enquanto dorme e de seus empurrões que me jogava contra a parede gelada – Clarice é espaçosa!
Eu a observava dormir – tão linda – me sentia em paz.  Aí, ela acordava e dizia: “Que foi, amor? Tá com fome?

Ao lado de Clarice, aprendi que ser singular é bom, mas ser par, é do caralho.

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3 comentários sobre “No céu não tem paçoca

  1. Toda vez que desço o escadão, que atravesso a passarela, que pego o primeiro ônibus sentido capital, que volto para minha casa em uma tarde ensolarada, eu sou o singular – sou só.
    A saudade já bate, no instante em que me despeço da minha Clarice, ali na ponta do escadão e ela me beija dizendo – amor, me avisa quando chegar tá?

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