Não deixa ele bater em você

Pedi as contas de quantas vezes ele a agrediu. As vezes eram socos, empurrões e tapa na cara. Outras, eram torturas psicológicas. Esbravejava rente ao rosto dela, que sem ele, ela passaria fome. Ele também contava sobre os casos extraconjugais sem o menor pudor. Dizia com orgulho que as mulheres da rua, eram mulheres de verdade. Elas sim, faziam ele gozar como ela nunca fez.

Corpo marcado, lágrimas escorrendo pelo rosto machucado e autoestima aniquilada.

Os Amigos e parentes, incessantemente, pediam para que ela o denunciasse.  Eu só queria que ela fizesse nossas malas e nos tirasse daquele inferno. Mas ela sempre arranjava uma desculpa para ficar – e apanhar. Depois de cada surra, eu saia e subia no pé de seriguela do quintal de casa. Era meu esconderijo. Ficava horas  tentando descobrir os motivos que a faziam ficar. Cheguei a cogitar a possibilidade de insanidade,  afinal, que ser humano em seu estado mental saudável, gosta de apanhar?

Sem encontrar uma justificativa plausível, me agarrava a ideia de que, criança não entende nada da vida e que quando eu crescesse,  tudo ganharia sentido e o nó na minha garganta sumiria.

Quando tinha treze anos, meus pais se separaram.

Dez anos se passaram. Hoje, não subo mais em árvores. Deixei de ser testemunha de barbárie e mudei de cidade. Cresci  e descobri porque ela ficava. Ela acreditava em milagres. Acreditava que um dia, ele voltaria a ser o cara bacana pelo qual ela se apaixonou.

Muita coisa mudou na minha vida, mas o nó na garganta permanece intacto. Se um tapa dói, imagina levar uma surra quase todas as noites de alguém que a gente ama? Imagina então, apanhar do cara que você escolheu para ser o pai dos seus filhos? Apesar de ter passado uma década, eu ainda imagino muita coisa antes de dormir. A empatia já me fez o ser humano mais feliz do mundo, mas também, me fez procurar um pé de seriguela em meio a prédios e carros.

 

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