Volte para casa

Faz dois anos que estou na capital. Quando aqui cheguei, fiquei impressionada com a altura dos prédios, com o excesso de automóveis na rua e com a iluminação da cidade – na minha antiga casa, a única luz que se enxergava, era a de um candeeiro que se apagava antes do sono chegar.

Por um instante, pensei que aquele aperto no peito e o medo de não dar certo, se dissolveriam no encantamento do novo. Enganei-me.

Na primeira volta que dei no bairro novo, senti meu estômago virar do avesso. Vi um céu cinza, o ar poluído e pessoas – que mais pareciam zumbis – andando sem olhar para os lados – tinha gente dormindo no viaduto, criança vendendo bala no farol, pessoas morrendo de frio – seres humanos sendo ignorados. Ninguém se reconhecia como semelhante.

Há dois anos, subi num ônibus com uma mala carregada de sonhos, expectativa e medo. A paisagem passava rapidamente pelos meus olhos marejados, enquanto a minha mente desenhava dezenas de planos. Antes, a minha maior preocupação era conseguir emprego na área da minha graduação. Hoje, tenho medo do concreto revestir meu coração. Não quero ficar aqui muito tempo – darei à cidade de pedra, dez anos da minha vida. Mais que isso não aguento, enlouqueço, ou pior: me tornarei um deles.

Daqui a dez anos, voltarei para o interior. Largarei o meu emprego bem remunerado, o meu apartamento no centro, o carro cujo IPVA é maior que o salário do jardineiro, do porteiro e da empregada da síndica do meu prédio. Trocarei o barulho das buzina, da catraca girando e das batidas no trânsito congestionado, pelo canto de passarinhos.

Daqui a dez anos, não me preocuparei em bater metas absurdas. Não levarei trabalho para casa, tampouco, deixarei que meus olhos virem casa para olheiras que denunciam noite mal dormida. Não precisarei entupir os poros do meu rosto com base, para camuflar a infelicidade que é gastar horas fazendo o que não deixa a minha vida mais leve. Jogarei fora todos os sapatos que maltratam meus pés e exigem de mim muito equilíbrio. Jogarei tudo para o alto sem titubear. Quando o meu chefe perguntar se enlouqueci, direi sorrindo: “Não, Chefe! Na verdade, acabei de recuperar minha sanidade – estou indo para casa!”.

Voltarei a pisar no chão de paralelepípedos que tanto enche meu coração de graça. Mal posso esperar para ouvir as histórias mirabolantes do Seu Zé da quitanda enquanto tomo o café fresquinho da Dona Terezinha. Já perdi tempo demais tentando aumentar os dígitos da minha conta bancária. Não quero que meus filhos vejam os meus olhos cansados. Quero contar para eles que na capital aprendi a ser forte, mas no interior, aprendi a ser humana.

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