Saudade de caju

Do lado da estação Lapa, tinha um moço vendendo um bocado de tranqueira eletrônica – não parei. Um pouquinho mais pra frente, uma moça – misturando o espanhol com português – anunciava que as batas estavam em promoção. Olhei de canto de olho, mas não parei.

Estava quase chegando na catraca que separa o comércio ambulante, do terminal, quando um cheiro me fez dar três passos para trás, me fez voltar – voltar para 2002.
– “A caixa de caju tá dez, hein?”

Fazia mais de treze anos que não sentia cheiro de caju. Hoje, graças ao moço que tentava a todo custo vender seu produto, eu senti. Lembrei de quando o chão lá da vó amanhecia coberto por caju – vermelhos e amarelos. Lembrei que meu irmão mais velho só sossegava, quando chegava no topo do cajueiro.


Um, dois, três…comíamos um caju atrás do outro, tomando o maior cuidado para não manchar a roupa, porque se manchasse, a mãe batia.

– Moça?

– Oi! Desculpa, estava distraída.

Vai levar uma?

– Ah, vou sim!
Passo a maioria dos dias, meio desligada. Vou da zona oeste, a zona sul, no modo automático. Raramente paro, estou sempre atrasada. Quando algo me desacelera, penso que seja um  chacoalhão carinhoso do universo. Um puxão de orelha celestial, seguido de uma bronca: – “Abre o olho, menina! Se continuar nesse ritmo, daqui a dez anos, não terá momentos memoráveis a serem recordados. Lembranças como essas, e a saudade gostosa que sentiu hoje, não existirão. Restará apenas, o nó na garganta e a sensação de ter vivido em vão.

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2 comentários sobre “Saudade de caju

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