Eu já te odiei, mãe! 

Mãe,  já te odiei algumas vezes. Assumo isso, correndo um sério risco de ir para o inferno – mãe é sagrada. 

Lembra aquele dia que você esqueceu de me buscar na escola? Então, te odiei! E o dia que você me deu uma surra, porque eu estava namorando o Rodrigo, “O maior maloqueiro da rua”, era assim que você o chamava, não era? Te odiei também. Mas te agradeço. Hoje, vejo que ele era um merdinha mesmo. 

Ah, nenhum ódio será maior, do que aquele que senti quando você foi embora e só me deixou uma carta. Custava me dar um abraço? Custava dizer que as coisas estavam difíceis e que você precisava ir, mas tudo iria se acertar mais tarde? Não, não custava.


Eu amo carta, mãe. Mas a sua fiz, em mil pedaços. Rasguei com toda raiva existente em mim – enquanto  fazia isso, desejei que você morresse. Mandei Deus ir à merda e soquei a parede como se fosse o Anderson Silva. Onde já se viu, me largar assim? Quem iria cuidar de mim naquele ano? Quem me levaria ao médico na madrugada, quando eu tivesse aquelas minhas crises repentinas de asma? Mãe, eu poderia ter morrido, sabia? Se a dificuldade em respirar não me matasse, certamente a tristeza me levaria a óbito. 
Eu respirei. Me acalmei. Não passou. Amenizou.

Nos primeiros dias, fiquei sentada na calçada com olhos fixos para a rua. Fiquei te esperando chegar com um pedaço de bolo e a bronca de sempre – “menina, você ainda não tomou banho?” – Mas você nunca chegava. Um dia adormeci e acordei com a Vó me cutucando, “O que você está fazendo, menina? Por que não entrou?” Eu disse que brinquei demais e acabei adormecendo ali mesmo. Acho que ela não acreditou, mas eu jamais confessaria que estava esperando você. O meu mundo lúdico serve para amenizar a minha dor e só. Nunca o exponho.

Na carta escrita numa caligrafia tremula, você deixou bem claro que me amava – disso nunca duvidei. Disse também que algumas coisas não dependiam só de você. Isso não entedia na época. Hoje entendo. Entendo e vejo que a sua ausência – nada fácil de lidar- me fez entender a essência do amor. Me fez admirar cada gesto de carinho por menor que ele seja. Me fez aproveitar a presença até o último – porque entre uma surpresa preparada pelo destino e outra, o ser amado pode ir embora e a sensação de não ter dado o melhor de si torturará a sua alma.

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