ALÔ, SEGUNDA-FEIRA! – DISSERAM NO BAR

Não havia vestígio de raios solares e eu já tinha que levantar. Sentei na cama, dei aquela coçada brusca nos olhos a fim de acabar com resquícios de remela e, cambaleando, fui até o banheiro. Depois do xixizão feito com sucesso, permaneci cinco minutos sentada na privada, meio desligada, ainda em Nárnia, meio que vasculhando a minha cachola na tentativa de encontrar um motivo que justifique o levantar antes do sol raiar.

A minha crise existencial foi interrompida por um celular que berrava do lado de fora do banheiro, “cacete de despertador”, eu gritei para ninguém enquanto me xingava mentalmente por ter esquecido de desativar o modo soneca mais uma vez.

Banho tomado, desodorante no sovaco, perfume no cangote, pé na estrada. Feito zumbi, meio emputecida e com a feição de uma carranca que põe medo até em marmanjo barbado sai de casa.

Peguei o busão, Ufa! Tá vazio, dá pra ir sentada. No ponto seguinte, as tiazonas que falam mais que o homem da cobra e que sempre reclamam das patroas adentram a Mercedes popular – a voz de taquara rachada daquelas hienas descontroladas, me privou do cochilo rotineiro. FIQUEI MAIS PUTA AINDA!

Me livrei delas no ponto próximo a estação, mas na primeira baldeação do dia, fui agraciada com uma bad desgraçada. Lembrei que mais uma vez, teria que lidar com a amargura e a arrogância de gente pequena que se acha grande demais. “Senhores usuários, informamos que devido a falha na via os trens estão circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada”, “PUTA QUE PARIU, MANO, agora essa! Só falta alguém peidar nessa merda de vagão”- esbravejei. Adivinhem? Peidaram! Quando as portas do inferno se abriram, digo, do metrô, sai num pinote, feito um pecador que após cumprir sua sentença deixa o purgatório e vai em direção à luz.

A barriga ronca feito uma RD 135 subindo o morro da favela – mesmo com o horário apertado, decidi passar na padaria de sempre. O Zé que faz o melhor pão na chapa de São Paulo me recebeu com um sorriso carismático seguido de um bom dia carregado de um sotaque familiar, assim como eu, ele também veio lá da terra do José de Alencar.  Deixei a padoca com a barriga cheia e contagiada pelo bom humor daquele senhor que mantém a alegria no peito mesmo com marcas de queimadura na mãos.

Estava descendo a Rua das rosas, quando o modo aleatório do meu Spotify me presenteou com um clássico do Marvin Gaye. Pensei em arriscar um passo de dança, mostrar a minha malemolência aos desconhecidos, mas lembrei das câmeras de segurança e desisti. Imagina eu no Youtube entre os mais vistos na categoria loucas-desengonçadas–dançando–na rua?

Esqueci o Marvin e foquei na canela, estava atrasada precisava acelerar a passada. Na esquina da Luiz Góis com a Rua das Rosas, uma vozinha me parou e perguntou se eu tinha um tempinho para ouvir a palavra de Jesus. Bom, eu não tinha, mas quem é que consegue virar as costas pra uma vozinha? Concordava com tudo que ela dizia para não prolongar a conversa. No fim, ela disse que eu parecia com uma das netas dela, agradeceu por eu ter parado e me deu um abraço.

Cheguei atrasada no trabalho, mas com o bom humor de dar inveja. Quando a galera perguntou se eu nunca acordava de mau humor, respondi: Eu? Eu não!

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