NA DOR, NÃO CABE A GENTE JULGAR NINGUÉM | RANI LISBOA

Estou aqui na paz, sério. Tá vendo aquela bandeira branca ali, ó? Fui eu quem hasteou. Estou desarmada: sem raiva, sem a síndrome-coitada-de-mim, sem vontade de te matar. No coração, só há espaço para gratidão, juro. Eu tô aqui pra pedir desculpas pelas farpas que lancei no teu peito por meio do meu tom de voz emputecido. Também quero dizer que foi burrice, impulsividade ou até mesmo infantilidade te mandar à merda por conta de um vacilo, unzinho. Você não é aquele bosta que eu pintei pra cada um que perguntou o que tinha acontecido com a gente, na verdade, é o oposto de tudo que a minha raiva gritou na tentativa de destruir tua reputação de bom moço. Quando o sentimento ruim feneceu, recuperei a sanidade e conclui que um mísero erro é incapaz de ofuscar todas as vezes que você acertou em cheio e me fez a mulher mais feliz do mundo.

Um erro não tira das suas mãos, o título de melhor cafuné que esse meu cocuruto já conheceu – tão eficaz que me fazia dormir em menos de dez segundos. Não apaga os abraços acalentadores que me deu quando desaguei no teu ombro em dias que o peso do mundo machucou as minhas costas. Não me faz por para fora todos os cafés que você preparou com tanto amor enquanto eu enrolava na cama. Não rasga o afeto que você transcreveu em guardanapos saqueados dos botecos que costumávamos nos embriagar e que até hoje marcam páginas de livros que eu deixo para ler depois. Não veta a adrenalina que senti quando cruzamos a cidade numa moto tão velha quanto o homem do baú enquanto buzinas enlouquecidas nos intimidava. Não tira o mérito dos teus cuidados. Não me faz esquecer das enumeras vezes que você levantou pra ascender o abajur quando eu reclamava – choramingando – que não conseguia dormir no escuro. Não apaga as noites que me cobria com edredom, nem as manhãs que me acordava com um beijo seguido de um abraço apertado. Não elimina as calorias que ingerimos em domingos regado a sorvete, salgadinho e Netflix.

O teu vacilo machucou mais que bater o dedinho na quina de um móvel. Eu chorei, chorei mais um pouco, chorei de novo, mas quando a dor foi embora, me dei conta que o acontecido era uma gota amarga diante de um oceano de felicidade vivida. Esse pingo não foi suficiente pra me fazer te odiar, mas foi o chacoalhão necessário para nos fazer entender que não éramos mais aquele casal bonito que matava de inveja os descrentes no amor. A rotina nos engoliu e a ideia de ser par, causava desconforto.

O nosso plural voltou a ser singular – eu aqui e você aí –, mas isso não me impede de continuar te amando e torcendo para que você se encontre. Do lado de cá, vibrarei com cada nova conquista corporativa tua, mesmo achando que existe mais arte na tua essência que relatório e planilhas de Excel. Ficarei feliz em saber que você bateu a suas metas de vida – elas sempre foram tão diferentes das minhas. Enquanto você sonhava em ganhar o mundo, eu só pensavam numa casinha no interior onde eu pudesse criar meus filhos longe dos agrotóxicos e da arrogância da cidade grande.

Hoje eu sei que as nossas vidas, tão divergentes, um dia se cruzaram com o intuito principal de nos fazer entender que amor genuíno, é aquele que se mantém intacto mesmo depois do fim de um relacionamento. Amor é continuar admirando o outro mesmo que ele não esteja mais do lado esquerdo da cama. Amor é gratidão. Obrigada por tudo.

Imagem: Pinterest

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